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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Manuscritos Econômico Filosóficos

(...) Pressupondo o homem enquanto homem e seu comportamento com o mundo enquanto um comportamento humano, tu só podes trocar amor por amor, confiança por confiança etc. Se tu quiseres fruir da arte, tens de ser uma pessoa artisticamente cultivada; se queres exercer influência sobre os outros seres humanos, tu tens de ser um ser humano que atue efetivamente sobre os outros de modo estimulante e encorajador. Cada uma das tuas relações com o homem e com a natureza - tem de ser uma externação determinada de tua vida individual efetiva correspondente a tua vontade. Se tu amas sem despertar o amor recíproco, isto é, se teu amar, enquanto amar não produz o amor recíproco, se mediante tua externação de vida como homem amante não te tornas homem amado, então teu amor é impotente, é uma infelecidade.

Karl Marx
Manuscritos Econômico-Filosóficos

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Império manda, as Colônias obedecem

Frei Betto e João Pedro Stédile

Após a Segunda Guerra Mundial, quando as forças aliadas saíram vitoriosas, o governo dos EUA tentou tirar o máximo proveito de sua vitória militar. Articulou a Assembléia das Nações Unidas dirigida por um Conselho de Segurança integrado pelos sete países mais poderosos, com poder de veto sobre as decisões dos demais.

Impôs o dólar como moeda internacional, submeteu a Europa ao Marshall, de subordinação econômica, e instalou mais de 300 bases militares na Europa e na Ásia, cujos governos e mídia jamais levantam a voz contra essa intervenção branca.

O mundo inteiro só não se curvou à Casa Branca porque existia a União Soviética para equilibrar a correlação de forças. Contra ela, os EUA travaram uma guerra sem limites, até derrotá-la política, militar e ideologicamente.

A partir da década de 90, o mundo ficou sob hegemonia total do governo e do capital estadunidenses, que passaram a impor suas decisões a todos os governos e povos, tratados como vassalos coloniais.

Quando tudo parecia calmo no império global, dominado pelo Tio Sam, eis que surgem resistências. Na América Latina, além de Cuba, outros povos elegem governos antiimperialistas. No Oriente Médio, os EUA tiveram que apelar para invasões militares a fim de manter o controle sobre o petróleo, sacrificando milhares de vidas de afegãos, iraquianos, palestinos e paquistaneses.

Nesse contexto surge no Irã um governo decidido a não se submeter aos interesses dos EUA. Dentro de sua política de desenvolvimento nacional, instala usinas nucleares e isso é intolerável para o Império.

A Casa Branca não aceita democracia entre os povos. Que significa todos os países terem direitos iguais. Não aceita a soberania nacional de outros povos. Não admite que cada povo e respectivo governo controlem seus recursos naturais.

Os EUA transferiram tecnologia nuclear para o Paquistão e Israel, que hoje possuem bomba atômica. Mas não toleram o acesso do Irã à tecnologia nuclear, mesmo para fins pacíficos. Por quê? De onde derivam tais poderes imperiais? De alguma convenção internacional? Não, apenas de sua prepotência militar.

Em Israel, há mais de vinte anos, Moshai Vanunu, que trabalhava na usina atômica, preocupado com a insegurança que isso representa para toda a região, denunciou que o governo já tinha a bomba. Resultado: foi sequestrado e condenado à prisão perpetua, comutada para 20 anos, depois de grande pressão internacional. Até hoje vive em prisão domiciliar, proibido de contato com qualquer estrangeiro.

Todos somos contra o armamento militar e bases militares estrangeiras em nossos países. Somos contrários ao uso da energia nuclear, devido aos altos riscos, e ao uso abusivo de tantos recursos econômicos em gastos militares.

O governo do Irã ousa defender sua soberania. O governo usamericano só não invadiu militarmente o Irã porque este tem 60 milhões de habitantes, é uma potência petrolífera e possui um governo nacionalista. As condições são muito diferentes do atoleiro chamado Iraque.

Felizmente, a diplomacia brasileira e de outros governos se envolveu na contenda. Esperamos que sejam respeitados os direitos do Irã, como de qualquer outro país, sem ameaças militares.

Resta-nos torcer para que aumentem as campanhas, em todo mundo, pelo desarmamento militar e nuclear. Oxalá o quanto antes se destinem os recursos de gastos militares para solucionar problemas como a fome, que atinge mais de um bilhão de pessoas.

Os movimentos sociais, ambientalistas, igrejas e entidades internacionais se reuniram recentemente em Cochabamba, numa conferência ecológica mundial, convocada pelo presidente Evo Morales. Decidiu-se preparar um plebiscito mundial, em abril de 2011. As pessoas serão convocadas a refletir e votar se concordam com a existência de bases militares estrangeiras em seus países; com os excessivos gastos militares e que os países do Hemisfério Sul continuem pagando a conta das agressões ao meio ambiente praticadas pelas indústrias poluidoras do Norte.

A luta será longa, mas nessa semana podemos comemorar uma pequena vitória antiimperialista.


Frei Betto é escritor
João Pedro Stédile integra a direção da Via Campesina

AGITPROP LEVANTE

O que é ser Politizado

Ser politizado é entender como funcionam as rela­ções de poder em cada sociedade e no mundo em ge­ral. É compreender que, por trás das relações de troca no mercado existem relações de exploração. Que, por trás das relações de voto, existem relações de domina­ção. Que, por trás das relações de informação, há um processo de alienação.

Ser politizado, no mundo de hoje, significa compre­endê-lo no marco das relações capitalistas de acumula­ção e de exploração. Representa entender o mundo no marco da hegemonia imperial estadunidense, baseada na força militar e na propaganda do modo de vida esta­dunidense.

Ser politizado é compreender que tudo o que existe foi produzido historicamente, pelas relações entre os ho­mens e o meio em que vivem. Ou melhor, entre os ho­mens, intermediados pelo meio em que vivem. E que, por­tanto, tudo o que foi construído pelos homens pode ser desconstruído e reconstruído. Que tudo é histórico. Que a própria separação entre su­jeito e objeto - que nos aparece como "dada" - é produzida e reproduzi­da cotidianamente mediante relações econômico-sociais alienadas.

Ser politizado é saber subordinar as contradições menores às estra­tégicas, saber que as contradições com o capitalismo são sempre tam­bém contra o imperialismo, pela fase histórica atual do capÍtalismo.

E o que é ser despolitizado?

Já ser despolitizado é achar que as coisas são como são porque são como são, sempre foram assim e sempre serão. É considerar que as pessoas sempre buscam tirar vantagens que não têm grandeza para lutar desinteressamente por um mundo melhor. Que o que diferen­cia as pessoas é a ambição de melhorar na vida, que a grande maio­ria não tem jeito mesmo.

Entre o ser politizado e o despolitizado está a alienação, a falta de consciência da relação entre nós e o mundo. Alienar é entregar o que é nosso para outro - como diz a definição jurídica em relação a bens. Ser alienado é não perceber a presença do sujeito no objeto e vice-ver­sa, sua vinculação indissolúvel.

A luta pela emancipação humana é uma luta contra toda forma de ex­ploração de dominação, de discriminação, mas, antes de tudo e sobretu­do, uma luta contra a alienação - condição de todas as outras lutas.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Discurso de Friedrich Engels no Funeral de Karl Marx

Em 14 de março, quando faltam 15 minutos para as 3 horas da tarde, deixou de pensar o maior pensador do presente. Ficou sozinho por escassos dois minutos, e sucedeu de encontramos ele em sua poltrona dormindo serenamente — dessa vez para sempre.

O que o proletariado militante da Europa e da América, o que a ciência histórica perdeu com a perda desse homem é impossível avaliar. Logo evidenciará-se a lacuna que a morte desse formidável espírito abriu.

Assim como Darwin em relação a lei do desenvolvimento dos organismos naturais, descobriu Marx a lei do desenvolvimento da História humana: o simples fato, escondido sobre crescente manto ideológico, de que os homens reclamam antes de tudo comida, bebida, moradia e vestuário, antes de poderem praticar a política, ciência, arte, religião, etc.; que portanto a produção imediata de víveres e com isso o correspondente estágio econômico de um povo ou de uma época constitui o fundamento a parir do qual as instituições políticas, as instituições jurídicas, a arte e mesmo as noções religiosas do povo em questão se desenvolve, na ordem em elas devem ser explicadas – e não ao contrário como nós até então fazíamos.

Isso não é tudo. Marx descobriu também a lei específica que governa o presente modo de produção capitalista e a sociedade burguesa por ele criada. Com a descoberta da mais-valia iluminaram-se subitamente esses problemas, enquanto que todas as investigações passadas, tanto dos economistas burgueses quanto dos críticos socialistas, perderam-se na obscuridade.

Duas descobertas tais deviam a uma vida bastar. Já é feliz aquele que faz somente uma delas. Mas em cada área isolada que Marx conduzia pesquisa, e estas pesquisas eram feitas em muitas áreas, nunca superficialmente, em cada área, inclusive na matemática, ele fez descobertas singulares.

Tal era o homem de ciência. Mas isso não era nem de perto a metade do homem. A ciência era para Marx um impulso histórico, uma força revolucionária. Por muito que ele podia ficar claramente contente com um novo conhecimento em alguma ciência teórica, cuja utilização prática talvez ainda não se revelasse – um tipo inteiramente diferente de contentamento ele experimentava, quando tratava-se de um conhecimento que exercia imediatamente uma mudança na indústria, e no desenvolvimento histórica em geral. Assim por exemplo ele acompanhava meticulosamente os avanços de pesquisa na área de eletricidade, e recentemente ainda aquelas de Marc Deprez.

Pois Marx era antes de tudo revolucionário. Contribuir, de um ou outro modo, com a queda da sociedade capitalista e de suas instituições estatais, contribuir com a emancipação do moderno proletariado, que primeiramente devia tomar consciência de sua posição e de seus anseios, consciência das condições de sua emancipação – essa era sua verdadeira missão em vida. O conflito era seu elemento. E ele combateu com uma paixão, com uma obstinação, com um êxito, como poucos tiveram. Seu trabalho no 'Rheinische Zeitung' (1842), no parisiense'Vorwarrs' (1844), no 'Brüsseler Deutsche Zeitung' (1847), no 'Neue Rhinische Zeitung' (1848-9), no 'New York Tribune' (1852-61) – junto com um grande volume de panfletos de luta, trabalho em organização de Paris, Bruxelas e Londres, e por fim a criação da grande Associação Internacional de Trabalhadores coroando o conjunto – em verdade, isso tudo era de novo um resultado que deixaria orgulhoso seu criador, ainda que não tivesse feito mais nada.

E por isso era Marx o mais odiado e mais caluniado homem de seu tempo. Governantes, absolutistas ou republicanos, exilavam-no. Burgueses, conservadores ou ultra-democratas, competiam em caluniar-lhe. Ele desvencilhava-se de tudo isso como se fosse uma teia de aranha, ignorava, só respondia quando era máxima a necessidade. E ele faleceu reverenciado, amado, pranteado por milhões de companheiros trabalhadores revolucionários – das minas da Sibéria, em toda parte da Europa e América, até a Califórnia – e eu me atrevo a dizer: ainda que ele tenha tido vários adversários, dificilmente teve algum inimigo pessoal.

Seu nome atravessará os séculos, bem como sua obra!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Nossos VALORES Militantes

Lágrimas...
O que pensar, diante de tanta sujeira?
De tanta injustiça?
Indignação. Frustração. Revolta. Angústia...
Tristeza

Tanta dedicação, tantos sentimentos, tantos valores
Tanto AMOR doado, recebido, multiplicado...
Preciso desabafar!
Por pra fora tudo aquilo que me angustia.
Por pra fora todo cuidado, todo carinho e respeito que temos pela Revolução.

Queremos construir algo NOVO?
Acreditamos que ISSO é possível?
SIM! É POSSÍVEL!
SIM! NÓS PODEMOS!

Lutamos e defendemos a construção de algo NOVO,
um novo MOVIMENTO, uma nova CULTURA, uma nova PRÁTICA
uma nova SOCIEDADE!
E que esta, seja alicerçada por NOVOS VALORES.

Somos JOVENS
MILITANTES
REVOLUCIONÁRIOS
HUMANOS
SENSÍVEIS
somos FORTES

Somos C-O-M-U-N-I-S-T-A-S!

Nosso discurso não pode estar descolado de nossa ação
O pragmatismo não pode superar nossos ideais
Nossa TEORIA, deve refletir nossa PRÁTICA
Nossa PRÁTICA, deve refletir nossa TEORIA

Ser exemplo-pedagógico,
Ser as/os primeiras/os
Ser o espelho daquilo que defendemos
daquilo que acreditamos

Que o AMOR, que nos guia rumo a uma sociedade justa, democrática e igualitária
possa contaminar nossos pensamentos
nossas atitudes, nosso posicionamento e nossos VALORES
SEMPRE!


Patrícia Ribeiro
CONSULTA POPULAR

"Eu creio que a primeira coisa que deve caracterizar um jovem comunista é a honra que se sente por ser jovem comunista. Essa honra que o leva a mostrar-se a toda gente na sua condição de ser comunista, que não o submete à clandestinidade, que o não reduz a fórmulas, mas que ele manifesta em cada momento que lhe sai do espírito, que tem interesse porque é o símbolo de seu orgulho.

Junta-se a isso um grande sentido do dever para com a sociedade que estamos construindo, para com os nossos semelhantes como seres humanos e para com todos os homens do mundo.

Isso é algo que deve caracterizar o jovem comunista. Paralelamente, uma grande sensibilidade a todos os problemas e uma grande sensibilidade em relação a justiça."
CHE

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Debate sobre a Crise

“Pra debater a CRISE

A Assembléia Popular e a Via Campesina promovem debate com o Cientista Político Gonzalo Rojas da UFCG e membro do Centro de Estudos Marxistas da Unicamp.

Dia 22 de abril (quarta-feira) no auditório da Biblioteca Central da UFCG às 19hs.


Convidamos todos para entendermos do carater e natureza dessa crise e e debatermos qual o nosso papel social diante dela.


Contra a Crise deles o Projeto Popular nosso!

Nós não vamos pagar por essa crise!

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Temporão diz que discussão sobre aborto é machista

O ministro José Gomes Temporão (Saúde) disse hoje que a discussão sobre a legalização do aborto no país vem sendo conduzida de forma machista, uma vez que "as leis, normas e julgamentos" sobre o tema são feitos por homens. Segundo Temporão, o aborto deve ser tratado como uma questão de saúde pública, sem a influência de aspectos religiosos, filosóficos, éticos ou fundamentalistas.
"Tem um viés machista nessa discussão. As mulheres têm que falar, ser ouvidas, e não apenas os homens. As mulheres na maioria das vezes se vêem sozinhas num momento como esse. Infelizmente, os homens não engravidam. Se engravidassem, essa questão já estaria resolvida há muito tempo", disse.
Temporão afirmou que, pessoalmente, não tem posição formada sobre a legalização do aborto. Mas como ministro, avalia que a prática se tornou um problema de saúde pública. "O assunto está saindo da polêmica. O governo não tem posição fechada sobre isso [aborto], mas hoje temos posição fechada do governo de que esse é um problema de saúde pública", afirmou.
O ministro evitou comentar a declaração do papa Bento 16 de que políticos católicos que defendem o aborto devem ser excomungados pela Igreja Católica. "Sou de formação católica sólida. Isso é uma questão de fé de cada um. O Brasil é um país, aliás, de muita liberdade de expressão religiosa, uma marca da sociedade brasileira", disse.
Segundo o ministro, pelo menos 250 mil mulheres que praticaram abortos ilegais no ano passado procuraram o SUS (Sistema Único de Saúde) para atendimento médico. Temporão disse que, oficialmente, são realizados 2.000 abortos legais por ano no país. O ministro ressaltou, no entanto, que dados de uma ONG (organização não-governamental) norte-americana mostram que são realizados 1,1 milhão de abortos clandestinos no país por ano. "Mas eu multiplicaria esses números por cinco", afirmou.
Mesmo sem revelar sua posição pessoal sobre o aborto, o ministro disse que os países que legalizaram a prática reduziram o número de abortos de forma drástica. "As discussões no campo da filosofia, ética, religião no campo moral são legítimas, mas o ministro tem que estar focado no campo da saúde pública. Então, temos que estar preocupados da mesma maneira que o presidente Lula colocou, de que esse é um problema de saúde pública", encerrou.

Publicidade GABRIELA GUERREIRO da Folha Online, em Brasília

quarta-feira, 9 de maio de 2007

<<< CHE >>>


Nascido em 14 de junho de 1928 na cidade de Rosário, Guevara foi o primeiro dos cincos filhos do casal Ernesto Lynch e Celia de la Serna y Llosa. Sua mãe foi a principal responsável por sua formação porque, mesmo sendo católica, mantinha em casa um ambiente de esquerda e sempre estava cercada por mulheres politizadas. Desde pequeno, Ernestito - como era chamado - sofria ataques de asma e por essa razão, aos 12 anos, se mudou com a família para as serras de Córdoba, onde morou perto de uma favela. A discriminação para com os mais pobres era comum à classe média argentina, porém Che não se importava e fez várias amizades com os favelados.


Estudou grande parte do ensino fundamental em casa com sua mãe. Na biblioteca de sua casa - que reunia cerca de 3000 livros - havia obras de Marx, Engels e Lenin, com os quais se familiarizou em sua adolescência. Em 1947, Ernesto entra na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, motivado em primeiro lugar por sua própria doença, desenvolvendo logo um especial interesse pela lepra. Em 1952, realiza uma longa jornada pela América do Sul com o melhor amigo, Alberto Granado, percorrendo 10.000 km em uma moto Norton 500, apelidada de 'La Poderosa'.


Observam, se interessam por tudo, analisam a realidade com olho crítico e pensamento profundo. Os oito meses dessa viagem marcam a ruptura de Guevara com os laços nacionalistas e dela se origina um diário. Aliás, escrever diários torna-se um hábito para o argentino, cultivado até a sua morte. No Peru, trabalhou com leprosos e resolveu se tornar um especialista no tratamento da doença. Che saiu dessa viagem chocado com a pobreza e a injustiça social que encontrou ao longo do caminho e se identificou com a luta dos camponeses por uma vida melhor. Mais tarde voltou à Argentina onde completou seus estudos em medicina. Foi convocado para o exército, porém, no momento estava incompatibilizado com a ideologia peronista. Não admitia ter de defender um governo autoritário. Portanto, no dia da inspeção médica, tomou um banho gelado antes de sair de casa e na hora do exame teve um ataque de asma. Foi considerado inapto e dispensado.


Já envolvido com a política, em 1953 viajou para a Bolívia e depois seguiu para Guatemala com seu novo amigo Ricardo Rojo. Foi lá que Guevara conheceu sua futura esposa, a peruana Hilda Gadea Acosta e Ñico Lopez, que, futuramente, o apresentaria a Raúl Castro no México. Na Guatemala, Arbenz Guzmán, o presidente esquerdista moderado, comandava uma ousada reforma agrária. Porém, os EUA, descontentes com tal ato que tiraria terras improdutivas de suas empresas concedendo-as aos famintos camponeses, planejou um golpe bem sucedido colocando no governo uma ditadura militar manipulada pelos yankees.


Che ficou inconformado com a facilidade norte-americana de dominar o país e com a apatia dos guatemaltecos. A partir desse momento, se convenceu da necessidade de tomar a iniciativa contra o cruel imperialismo. Com o clima tenso na Guatemala e perseguido pela ditadura, Che foi para o México. Alguns relatos dizem que corria risco de vida no território guatemalteco, mas essa ida ao México já estava planejada. Lá lecionava em uma universidade e trabalhava no Hospital Geral da Cidade do México, onde reencontrou Ñico Lopez, que o levou para conhecer Raúl Castro. Raúl, que se encontrava refugiado no México após a fracassada revolução em Cuba em 1953, se tornou rapidamente amigo de Che. Depois, Raúl apresentou Che a seu irmão mais velho Fidel que, do mesmo modo, tornou-se amigo instantaneamente. Tiveram a famosa conversa de uma noite inteira onde debateram sobre política mundial e, ao final, estava acertada a participação de Che no grupo revolucionário que tentaria tomar o poder em Cuba. A partir desse momento começaram a treinar táticas de guerrilha e operações de fuga e ataque. Em 25 de novembro de 1956 os revolucionários desembarcam em Cuba e se refugiam na Sierra Maestra, de onde comandam o exército rebelde na bem-sucedida guerrilha que derrubou o governo de Fulgêncio Batista.


Depois da vitória, em 1959, Che torna-se cidadão cubano e vira o segundo homem mais poderoso de Cuba. Marxista-leninista convicto, é apontado por especialistas como o responsável pela adesão de Fidel ao bloco soviético e pelo confronto do novo governo com os Estados Unidos. Guevara queria levar o comunismo a toda a América Latina e acreditava apaixonadamente na necessidade do apoio cubano aos movimentos guerrilheiros da região e também da África.


Da revolução em Cuba até sua morte, amargou três mal-sucedidas expedições guerrilheiras. A primeira na Argentina, em 1964, quando seu grupo foi descoberto e a maioria morta ou capturada. A segunda, um ano depois de fugir da Argentina, no antigo Congo Belga, mais tarde Zaire e atualmente República Democrática do Congo. E por fim na Bolívia, onde acabaria executado. Sem a barba e a boina tradicionais, disfarçado de economista uruguaio, Che Guevara entrou na Bolívia em novembro de 1966. A ele se juntaram 50 guerrilheiros cubanos, bolivianos, argentinos e peruanos, numa base num deserto do Sudeste do país. Seu plano era treinar guerrilheiros de vários países para começar uma revolução continental. Guevara foi capturado em 8 de outubro de 1967. Passou a noite numa escola de La Higuera, a 50 quilômetros de Vallegrande, e, no dia seguinte, por ordem do presidente da Bolívia, general René Barrientos, foi executado com nove tiros numa escola na aldeia de La Higuera, no centro-sul da Bolívia, no dia seguinte à sua captura pelos rangers do Exército boliviano, treinados pelos Estados Unidos. Sua morte, no dia 9 de outubro de 1967, aos 39 anos, interrompeu o sonho de estender a Revolução Cubana à América Latina, mas não impediu que seus ideais continuassem a gozar de popularidade entre as esquerdas. Os boatos que cercaram a execução de Che Guevara levantaram dúvidas sobre a identidade do guerrilheiro.


A confusão culminou no desaparecimento dos seus restos mortais, encontrados apenas em 1997, quando o mundo recordava os trinta anos de sua morte, sob o terreno do aeroporto de Vallegrande. O corpo estava sem as mãos, amputadas para reconhecimento poucos dias depois da morte, e contrabandeadas para Cuba. Em 17 de outubro de 1997, Che foi enterrado com pompas na cidade cubana de Santa Clara (onde liderou uma batalha decisiva para a derrubada de Batista), com a presença da família e de Fidel. Embora seus ideais sejam românticos aos olhos de um mundo globalizado, ele se transformou num ícone na história das revoluções do século XX e num exemplo de coerência política. Sua morte determinou o nascimento de um mito, até hoje símbolo de resistência para os países latino-americanos.

Cuba e Paulo Freire

Em Cuba, na última semana de abril, participei das comemorações do 20º aniversário do Centro Martin Luther King, vinculado à Igreja Batista. Presentes familiares do líder pacifista estadunidense, assassinado a 4 de abril de 1968 por defender o fim da discriminação racial e os direitos civis.
O Centro dedica-se à educação popular segundo o método Paulo Freire. Durante duas décadas o educador brasileiro - cujo 10º aniversário de seu desaparecimento celebramos a 2 de maio - foi alvo de desconfiança no mundo comunista. Uma de suas primeiras obras, "Educação como prática da liberdade", mereceu de intelectuais do Partido Comunista Brasileiro a injusta qualificação de "idealismo hegeliano".
Incomodava a seus detratores o fato de Paulo ser cristão e haver criado um método de alfabetização que facilita o diálogo entre a esquerda e os pobres, despindo-a da velha postura colonialista da intelectualidade que, do alto de sua pretensão, se julgava "vanguarda do proletariado" .
Ao iniciar o trabalho em prol da reaproximação Igreja Católica e Estado em Cuba, no início dos anos 80, expus a Fidel a importância do pensamento de Paulo Freire. Os cubanos consideravam "popular" toda a educação adotada pela Revolução. Mostrei-lhes que a educação escolar tem como pressuposto o patrimônio cultural adquirido e transmitido pelo professor.
Não há método Paulo Freire que induza os alunos a reinventar a trigonometria ou deduzir de suas experiências de vida as transmutações químicas da escala atômica. Já a educação popular tem como ponto de partida e chegada à prática social dos educandos. Ela não prioriza a transmissão de conhecimentos, e sim o exercício pedagógico da reflexão crítica; da análise de conjuntura; da descoberta das relações de causa e efeito nos fenômenos sociais; das conexões entre o local, o nacional e o mundial; da percepção da vida, não como mera realidade biológica, mas, sobretudo, como processo biográfico, histórico.
Fidel abriu as portas de Cuba a uma série de encontros latino-americanos de educação popular, o que favoreceu o aparecimento na Ilha, em 1987, do Centro Martin Luther King, hoje um dos promotores do Fórum Social Mundial.
Na cerimônia de aniversário, na noite de 24 de abril, presentes autoridades como Ricardo Alarcón, presidente da Assembléia Nacional, e Abel Prieto, ministro da Cultura. Sublinhei a importância do método Paulo Freire no esforço cubano de reinventar o socialismo nesse mundo globocolonizado.
Entre o ovo e a galinha, o capitalismo prioriza o primeiro. Acredita que, chocando com suas instituições escolares bons profissionais, haverá de tornar o mundo melhor. O resultado contradiz o propósito, como o comprovam tantos políticos e profissionais liberais notoriamente corruptos, indiferentes às desigualdades sociais, formados em escolas católicas e universidades qualificadas.
O socialismo preferiu a galinha. Acreditou que a sociedade estruturada para dirimir desigualdades haveria de gerar pessoas dotadas de altruísmo e senso de solidariedade. Os 70 anos de União Soviética esvaziaram o mito. Bastou o retrocesso ao capitalismo (em decorrência de um socialismo mais próximo do autoritarismo czarista que da democracia participativa dos sovietes, como queria Lênin) para evidenciar que a galinha não conseguira chocar o ovo do qual brotaria o homem e a mulher novos (filhos do casamento de Ernesto Che Guevara com santa Teresa de Ávila).
Não há estrutura socialista que produza, por efeito mecânico, pessoas de índole generosa, abertas à partilha, a menos que se adote uma pedagogia capaz de promover permanente emulação moral capaz de fazer do socialismo o nome político do amor. Cada nova geração há de ser educada, pois a natureza humana, egoísta em sua essência, é mais conforme ao capitalismo que a um sistema que se propõe a fazer do social expressão da felicidade pessoal.
Ressaltei que Cuba escapou do efeito dominó provocado pela queda do Muro de Berlim graças à singularidade de seu processo revolucionário. Ali, mais do que Marx, Engels ou Lênin, têm importância o vigor intelectual do padre Felix Varella e o pensamento libertário de José Martí.
Rául Castro, irmão de Fidel, disse-me que o futuro da Revolução está consolidado. Fidel recupera-se bem e já participa das decisões mais importantes quanto às políticas interna e externa. Não retornará como antes ao exercício de suas atividades como primeiro mandatário do país. A idade e as condições de saúde exigem que seja poupado, sem que isso signifique, para tristeza da Casa Branca, o descanso do guerreiro.
Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Paulo Freire e Ricardo Kotscho, de "Essa escola chamada vida" (Ática), entre outros livros.
* Frei dominicano. Escritor.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

O TRABALHO: DO FOGO À EDUCAÇÃO

O TRABALHO: DO FOGO À EDUCAÇÃO

Aconteceu em duas ocasiões com as mulheres (pouco antes da Guerra do Paraguai e da Lei Áurea), em uma ocasião com os homens (quando Santos Dumont levantava vôo) e acontece com as crianças. Resumindo, nos Estados Unidos os empregados(as) de três fábricas trabalhavam 16 horas/dia, o salário das mulheres era um terço do salário dos homem e sem licença maternidade. Nessa época as reclamações dos trabalhadores eram vistas como caso de polícia e as manifestações foram reprimidas com violência.
No caso das mulheres 250 foram trancadas dentro de duas fábricas e queimadas vivas em dois incêndios. O dia do primeiro incêndio, 8 de março, a ONU adotou como o Dia Internacional da Mulher e no Brasil no dia 24 de fevereiro de 1932 as mulheres conquistavam o direito de votar e serem eleitas. Nos anos 70 muito se falava da mulher-saco de pancada.
No caso dos homens houve mortes por tiroteio na rua e julgamento com enforcamento. O dia do tiroteio, 1º de maio, é Dia Mundial do Trabalho porque nessa data lembramos o esforço humano para o desenvolvimento da humanidade pelo trabalho de cada um. No Brasil, em 1930, foi criado o Ministério do Trabalho. Em 1932 o trabalho feminino e o trabalho de menores passaram a ter regras porque as fábricas empregavam muitas crianças e mulheres. Em 1934 foram introduzidos na Constituição o salário mínimo, as férias anuais e o descanso semanal remunerado. O Dia do Trabalho foi adotado em 1938, em 1º de maio de 1941 surgiu a Justiça do Trabalho e esse dia em 1949 foi declarado feriado nacional pelo Presidente Dutra.
Outro caso é o trabalho infantil: hoje no mundo há mais crianças "trabalhando" como se fossem servos do que na época do auge da escravidão. O Dia Mundial contra o Trabalho Infantil é 12 de junho, dia um relatório da OIT/Organizaçã o Internacional do Trabalho de 2002 pede inclusão social de crianças inseridas no trabalho, uma violência que compromete seu desenvolvimento e impede que a infância seja um tempo de brincar e de estudar. Segundo o IBGE/2003, o Brasil tem 2,7 milhões de crianças na faixa dos 5 aos 15 anos no trabalho infantil. O símbolo do Dia Mundial contra o Trabalho Infantil é o cata-vento criado no Brasil e desde 1996 somos o único país a ter um Programa pela Erradicação do Trabalho Infantil, o PETI, e seu principal objetivo é retirar crianças do trabalho violento. Segundo um tratado internacional de 1973 a idade mínima de admissão ao trabalho não deverá ser inferior à idade da conclusão do ensino obrigatório. A primeira lei de proteção à infância referente ao direito do trabalho no Brasil é de 1891, hoje temos o Estatuto da Criança e do Adolescente e a legislação brasileira proíbe o trabalho para idade inferior a 16 anos.
Um quarto caso é o trabalho que acidenta, aleija e mata. Em 28/04/2003 a OIT adotou um dia oficial da segurança e saúde nos locais de trabalho a partir de um movimento no Canadá que se espalhou pelo mundo. No Brasil morrem todos os anos três mil trabalhadores - uma morte a cada duas horas de trabalho - e outros 300 mil se acidentam - três acidentes a cada minuto trabalhado. O Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho é 28 de abril (Lei nº 11.121/2005) .
Temos ainda um quinto caso relativo ao trabalho. Dois anos antes de sair do governo, em junho de 1943 Getúlio Vargas publicava a famosa CLT, regulamentando as horas de trabalho, descanso remunerado, férias, estabilidade no emprego, saúde do trabalho e carteira do trabalho. A publicação da CLT conferiu grande apoio popular a Getúlio que com ela associou sua imagem à defesa dos interesses dos trabalhadores. O público lotava os estádios de futebol do Vasco da Gama e do Pacaembu ou ligava o rádio na Hora do Brasil para ouvir os discursos de Getúlio anunciando, entre outros, o valor do salário mínimo.
O sexto e último caso é fascinante e envolve o trabalho e a Educação. A CLT mostra relações entre capital e trabalho, mas existe a grande diferença entre os salários. Em 1946 Josué de Castro, indicado para o Nobel de Medicina e duas vezes para o da Paz, foi o primeiro no mundo a mostrar que as distorções econômicas estão ligadas à fome e ele criou o nome de "subdesenvolvimento ". Nos anos 60 James Heckman (Nobel de Economia, 2000) mostrou que investir em Educação é retorno salarial garantido. De fato, a Educação desde a creche é a maior vantagem dos trabalhadores para enfrentar a pobreza e os baixos salários porque permite que as pessoas se preparem melhor para o emprego e caminhem com suas próprias forças.
[1] Coordenador NED, médico, professor UFMG.
[2] Do NED, Projeto Brasil Trabalhista, geógrafa, advogada, professora.
[3] Do NED, físico, professor; Anderson Brito/Estudante de Direito.